Mulheres refugiadas

Em Novembro prestámos aqui o nosso tributo a Shirin Ebadi, uma jurista iraniana, prémio Nobel da Paz. Em Dezembro quisemos pôr em destaque Angelina Jolie, actriz nada e criada em Hollywood, Embaixadora da Boa Vontade para os Refugiados. Entre Teerão e Los Angeles, cuja distância é tão obviamente grande, principalmente para as mulheres, situa-se Birak, região acidentada na fronteira do Chade com o Sudão. Mas Birak é apenas um pequeno ponto no mapa dos milhões de mulheres refugiadas e é apenas um pretexto para homenagearmos agora essa imensa massa anónima de heroínas, muitas vezes mártires, das deslocações forçadas de todos os tempos.

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Uma equipa de emergência do ACNUR destacada em Birak,  fronteira nordeste entre o Chade e o Sudão, visitou Djoran, um dos muitos campos improvisados de refugiados na região, no passado dia 8 de Janeiro. O número de refugiados nesta zona está estimado em cerca de 40.000. Vivem em pequenos abrigos de 2 ou 3 m2 feitos de ramos e palha, cada um deles alojando, em muitos casos, famílias inteiras (cada família tem em média 5 crianças). Estes abrigos oferecem uma protecção mínima dos raios solares mas são praticamente inúteis durante a noite, em que as temperaturas baixam para cerca de 4º C.  Estes são dois dos diversos relatos recolhidos pela equipa:

"Um refugiado acabado de chegar de Garuma, no Sudão, a 20 km da fronteira, contou que há uma semana cerca de 150 milícias, montados em cavalos e camelos, chegaram à sua aldeia. Conseguiu fugir com a sua mulher grávida e as suas cinco crianças, escondendo-se numa colina próxima, onde a sua mulher deu à luz. Mas os milícias pegaram fogo aos arbustos, obrigando-os a fugir para mais longe. O homem deixou a família escondida e percorreu de burro os 20 kms até à fronteira para averiguar sobre as condições de segurança."  

"Uma refugiada, que chegou ao campo na 4a. feira explicou que tinha fugido com os seus cinco filhos depois do seu pai ter sido assassinado. Afirmou que as milícias tinham assassinado diversos homens, obrigando a população a refugiar-se nas montanhas próximas. O seu marido há já diversas semanas que estava ausente, tendo abandonado a aldeia em busca de trabalho noutra parte do Sudão."

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De acordo com um relatório do Banco Mundial, uma em cada três mulheres já foi vítima de sérias agressões físicas, forçada a ter relações sexuais ou, sob alguma forma, abusada ou ultrajada. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) estima que o número de mulheres traficadas anualmente através das fronteiras ultrapasse os dois milhões.

Quando são apanhadas no meio de conflitos armados, a situação das mulheres é ainda mais vulnerável. Num relatório do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM) pode ler-se "em muitas situações de guerra, a violência sobre as mulheres tem atingido níveis incompreensíveis de brutalidade e crueldade. Na República Democrática do Congo, onde se estima que centenas de milhares de mulheres tenham sido violadas desde 1998, a mutilação sexual e até situações de canibalismo foram reportadas em 2003, mencionando-se grupos armados que têm como alvo especial mulheres pigmeias para canibalismo e extermínio"

Mas não se pense que a barbárie acontece apenas com outras raças, credos ou em lugares remotos. Basta lembrarmo-nos do que aconteceu  há poucos anos atrás, aqui bem perto de nós, nos Balcãs. Os relatos, alguns dos quais ouvimos em primeira mão, quando em 1999 participámos na evacuação de emergência de campos improvisados de refugiados ao longo da fronteira do Kosovo com a Macedónia, ultrapassam a imaginação mais mórbida ao serviço de qualquer história de ficção.

As mulheres correspondem a cerca de 50% das populações deslocadas. Têm, frequentemente, outras pessoas ainda mais vulneráveis a cargo - as suas crianças e idosos, perfazendo com elas a esmagadora maioria dos campos de refugiados. Mesmo depois de se sentirem em segurança, é enorme o fardo que transportam, não sendo fácil refazerem as suas vidas.